Provincianismo e crise II
Por Rafael Leal, advogado membro da CEJA
Quando publicado nesta mesma seção artigo de minha autoria, “provincianismo e crise”, em 14/06/2008, foram trazidos à tona fatos recentes que faziam com que a realidade fictícia de prosperidade, honestidade e ética, em que vivemos no Rio Grande do Sul desabasse.
Ilusão provocada por conceitos retrógrados, mesquinhos e pequenos de que somos eternamente melhores. Em reportagem encartada na revista Veja desta semana intitulada “O Marketing de Bombacha” (e comentada recentemente na ZH , na nota “Bairrismo nas Prateleiras”), o semanário explica e escancara, para o Brasil todo o que, para alguns, ainda pode ensejar orgulho e satisfação: uma empresa para fazer sucesso no Rio Grande do Sul deve ser daqui ou ao menos parecer ser.
Observem a contraditória realidade em que vivemos! Ao mesmo tempo em que enfrentamos dificuldades financeiras, crises morais e estagnação política impressionantes, dizemos a todo e qualquer investidor de fora: não aportem aqui! Ou adaptem-se a nós!
Mesmo quando constatamos que o Governo Federal investe milhões de reais em outros Estados, principalmente no nordeste, e nenhum centavo no Rio Grande, insistimos em mandar o recado em alto e bom som: não precisamos e não queremos ajuda!
O urro corriqueiro ouvido em estádios, shows ou aglomerados em geral “Ah, eu sou gaúcho” pode parecer emocionante aqui, mas soa patético em qualquer localidade além-Mampituba.
O curioso é que não se ouve este brado intenso do aguerrido povo gaúcho para exigir dos parlamentares e do Governo do Estado que fiscalizem e detenham a sanha arrecadatória destes pedágios que nos sangram, e que aniquilam uma determinada cidade ou região pelo isolamento; para cobrar do Executivo Federal uma solução urgente para a caótica BR-116 (segunda rodovia mais movimentada do país, trecho Porto Alegre - Novo Hamburgo) ou acelerar as obras da BR-101 que nos isolam geograficamente (pois espiritualmente já estamos) do resto do país; para cobrar soluções efetivas para a (in) segurança pública em que vivemos; para postular a implementação de um programa de saúde e saneamento básico decente; para exigir investimentos na educação pública começando por remunerar dignamente nossos professores; para refletir porque nossos bacharéis em Direito tiveram um dos piores índices de aprovação na primeira etapa do exame da OAB nacional (83% de reprovação na primeira fase); ou ainda para se cobrar a construção de novos presídios, pois os que aqui dispostos apenas empilham homens, jamais regeneram cidadãos.
Dependemos, em um mistura incongruente de passividade e orgulho, de atitudes isoladas para que as coisas aconteçam. Exemplos como a da ilustre magistrada Rosana Broglio Garbin, da 7ª Vara da Fazenda Pública da Capital, que recentemente julgou procedente ação proposta pelo Ministério Público e condenou o Estado do Rio Grande do Sul a criar 3.892 vagas no sistema prisional ou da campanha institucional da RBS, para (ainda!) ter que cobrar a duplicação de uma bizarra BR-101-sul em pleno século XXI.
Já é, senhores, em pleno 2009, mais do que chegada a hora de separarmos a tradição do bairrismo. O orgulho do devaneio. A desconfiança da integração. O apequenamento do desenvolvimento. Ou, adotarmos de vez esta postura prepotente e separatista e corrermos o risco de nos tornarmos um Camboja, conhecido apenas por seus férteis arrozais…
Rafael Coelho Leal,
Membro da Comissão do Jovem Advogado OAB/RS
Posted under Notícias
This post was written by admin on fevereiro 27, 2009




